segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Salomé

Orgânica e "imperfeita" - segundo os princípios dos especialistas, Salomé é uma animação 2D que realizei no primeiro semestre de 2025, inteiramente em computador e cujas partes componentes (desenho, texto, som ) são todas de minha autoria.

SALOMÉ
Salomé é um nome da sedução.
A acção passa-se na hipocrisia à mesa de um banquete, na exibição à mesa de um restaurante, na
intimidade à mesa de um domicílio.
É uma mesa o lugar. São sem limite as variáveis circunstanciais: comédia de Cupido? capricho do
desejo? insofrimento da recusa? tudo isso junto na incontinência dos sentidos?
O tempo é o do arquétipo. Irrepetível... mas igual sempre.
Diferente na geografia iconográfica... não na essência - sempre a mesma.
Diferente sempre na invenção das máscaras com que mostra - ou oculta - a virtude do seu exercício.
Mistério do desejo: o próprio no outro - impossibilidade de ser; reflexo destruído sendo;
apagamento; extinção.
Feito está o mundo de paralelos espelhos. Sob a presunção de ser único repousa o reflexo do
outro... imitação que se imita.
Instaura-se o caos se... rejeitando a disposição de alinhamento, algum espelho exibe outras
paisagens.
II
Vem ao rio a água de outro tempo, refeita nova, pela paciente sofreguidão do querer vivido. Pela
paixão do que chamamos belo - só porque não possuído - e que a posse perverte primeiro e, depois,
mata.
Volteia a chama que atrai, volteia a mariposa em sua adoração. Sedutor e seduzido indiscernidos.
Espelhos recíprocos simetrizam incidentais a contradição aparente dos movimentos, a ambos dando
vitória... e seu reverso.
Gesto e olhar como palavras truculentas, escorregadias na metáfora dos possíveis, invertidas
mesmo como nos espelhos, as imagens. Tudo é tácito antes... e interpretação do próprio. À primeira
palavra inicia-se o acesso e breve está a entrada triunfal.
Urgência da posse.
Tempo da colheita.
Depois o mesmo olhar o mesmo sorrir outra coisa quererão dizer... mas só depois.
Cobre-se então de sombra a alegria, de cinza o ser. E do braseiro original já nem vestígios do fogo
na alma ou crepitação da garra na carne.
Ficção de infinitude... o inalcançável é o motor do desejo. Na consumação da posse o alcançado
extingue-se e nem motor nem desejo já, que emergem o mesmo. A rotina a instaurar-se. O preço da
posse é o funeral de si mesmo. O exílio da luz.
Nem solstício nem lua-cheia agora senão incertezas de terem sido. Calcária cristalização o preço
primeiro a pagar. Relógio sem ponteiros... corrupção o tempo. Aváro carrasco o cobrador.
Rigoroso e obstinado o lamento mas de fruto isento.
III
Desejo e acção não são separáveis. Se cindidos um deles será falso. Instala-se então a hipocrisia.
No zénite da alvura o desejo é todo cores, ficção que edifica deslumbrante a cegueira. Mas nas
arquitecturas de cristal a deslocação da sílica é inconstante, varia com a variação da emoção que a
cada momento domina, soberana sempre. Então pode ser longo o breve e momento o que
chamamos eternidade. Não pára nunca o movimento, descendente agora a sílica e a sombra
acumulam-se rasas, e é só ocaso escuro então, sem cor, sem alvura. Baça lama a sílica, estilhaço o
cristal.
E do desejo ardente a acender fogos e delírios só cinzas há agora. Ausência. Nem zénite nem
desejo. Nem sequer mesmo já a vontade do lamento.
Fim.

Visualizar o filme:

https://drive.google.com/file/d/1QPls7CI5IwuLwzFwkf2H4L64ckAsc154/view?usp=sharing

 Français

Salomé
I
Salome c'est un nom de la sedution.
L'action se passeà la table d'un -banquete-, dans l'exibition à la table d'un restaurant, dans l'intimité
à la table d'un domicile.
C'est une table le lieu. Sont sans limite les variables circonstanciels: comédie de Cupidon? caprice
du désir? insufrance de la refuse? tout ça joint dans l'incontinence des sens?
Le temps c'est le de l'archétype. Irrepetible... mais egal toujours.
Différent dans la géographie iconographique... non pas dans l'essence - toujours la même.
Différent toujours dans l'invention des másques avec lesquelles montre - ou oculta - la virtue de son
exercice.
Mystére du désir: soi-même dans l'autre - impossibilité d'être; refléxe détrui -sendo- ; -apagamento-
; extinction.
Fait est le monde de parallèles miroirs. Sous l'assomption d'être unique repose le reflêxe de l'autre...
imitation que se imite.
Instauration du chaos se... rejetant la disposition de l?alignement, aucun miroir exhibe autres
paysages.
II
Urgence de la possession.
Vien à la rivière l'eau d'autre temps, refaite neuve, par la patiente sofreguidão du vouloir . Pour la
passion de ce qu'on appelle beau - seulement parce que non possédé - et que la possession perverte
d'abord et, puis, tue.
Volteia la flamme que attire, volteia la mariposa dans ça adoration. Séducteur et séduit
indiscernées. Miroirs réciproques symétrisent incidentels la contradiction apparent des
mouvements, aux ambos donnent victoire... et son revers.
Geste et regard comme paroles truculents, escorregadias dans la métaphore des possibles, inversées
même comme dans les mirois, les images. Tout est tacite avant... et interpretation du próprio. A la
premiére parole s'initie l'accès et bref est l'entrée triomphal.
Temps de la racolte.
Depuis le même regard le même sourrir autre chose vouleront dire... mais seulement aprés.
Couvre se alors de l'ombe la joie, De cendres l'être. Et du brasier original já nem vestiges du feu
dans l'âme ou crépitation des griffes dans carne.
Fiction d'infinitude...l'inobtenable est le moteur du désir. Dans la consumation de la posse o
alcançado s'éteindre et nem moteur nem désir dejá, que émerges le même. La routine a s'instaurer.
Le prix de la posse c'est le funeral de soi-même. L'exile de la lumiére.
Nem solstice nem pleine lune alors sinon incertitudes de avoirent être. Calcaire cristalisation le prix
premiére a payer. Horloge sans ponteiros... corruption le temps. Avare bourreau le cobrador.
Rigoureux et obstiné le lament mais de fruit exempt.
III
Désir et action ne sont pas separables. Se scindues un d'eux serat faux. S'instale alors l'hypocrisie.
Aux zénith de l'aubure le désir est tout couleurs, fiction que édifie deslumbrante la cecité. Mais
dans les architectures de cristal la deslocação de la silica est inconstant, varie avec la variation de
l'émotion que à chaque moment domine, souveraine toujours. Alors peut être long le bref et moment
ce qu'on appelle éternité. Ne s'arrête jamais le mouvement, descendent alors la silica et l'ombre
s'accumule rasas, et c'est seul ocaso foncé alors, sans couleur, sans alvura, Baça boue la silica,
estilhaço le cristal.
Et du désir ardent à allumer feux et délires seul cendres a alors. Absence. Nem zentih nem désir.
Nem même dejá la volonté du lament.

Visualization du film

https://drive.google.com/file/d/1QPls7CI5IwuLwzFwkf2H4L64ckAsc154/view?usp=sharing

 

English

I d'ont translate to english because i d'ont know cast in it the same poetic ambience the texte have.

To visualize the film: 

https://drive.google.com/file/d/1QPls7CI5IwuLwzFwkf2H4L64ckAsc154/view?usp=sharing


sábado, 6 de dezembro de 2025

O que é uma pessoa

 O que é uma pessoa hoje em dia?

É um animal da espécie autodenominada humana

É uma matéria prima enquanto turista, doente, desportista; respectivamente para as indústrias dos transportes, da hotelaria e restauração, para as indústrias farmacêutica, médica e conexas, para as indústrias do lazer e do desporto... para não falar dos sistemas de captação de dados para o desenvolvimento da chamada inteligência artificial.

É parte - peça - nos vários ramos das diversas indústrias e serviços. Ou seja, é consumidor e consumido. E é, sobretudo, escravo. Escravo que se julga livre da escravidão. É escravo ao reclamar direitos - reconhecendo com isso a existência do(s) seu(s) senhor(e).

Direitos são benesses que os senhores concedem aos seus servos!

Julga-se livre (palavra cujo uso encerra grande confusão), mas é-o somente no âmbito do catálogo de possibilidades - dos direitos - que o próprio contexto social valida. E por debaixo dessa aparência superficial de liberdade repousa a mais rígida e sofisticada escravatura, em que a economia é o modus operandi, e moeda e propriedade são os operadores funcionais.

  

quinta-feira, 3 de julho de 2025

 A perfeição como objectivo.

A uniformidade como princípio.

A subjugação como modelo de felicidade.

 

Começa-se por definir um conceito de perfeição - as máquinas são um bom exemplo dessa situação. Que uma máquina é perfeita, significa que ela é eficaz e que cumpre a função para que foi feita. Pense-se por exemplo numa máquina fotográfica: ela é perfeita se a óptica (a lente) é sem defeito, se o corpo é estanque à luz, se o obturador respeitar os tempos definidos. Não cumprindo estes predicados diz-se que a máquina não presta, que está estragada, enfim, que é inútil. Mas será assim? E se às máquinas, como às pessoas, se reconhecer o direito à idiosincrasia?

Acontece que - e mantendo-nos ainda no exemplo da máquina fotográfica - se uma centena de máquinas em condição de perfeição, fizerem (cada uma delas) a fotografia de um mesmo objecto num mesmo momento, o que resulta são 100 fotografias exactamente iguais; indiscerníveis na atribuição de cada uma das fotos à respectiva máquina que a fez. Gera-se assim o princípio da uniformidade.

Ocorre o mesmo com as pessoas se não se reconhece a diferença idiosincrática de cada indivíduo - que dessa maneira passa à condição de mero singular, ou seja, uma unidade indiscernível entre tantas do mesmo género.

Deixo a metáfora das máquinas fotográficas e fixo-me na associação dos ditos seres humanos. Se, como no caso das máquinas, só as pessoas pensando e comportando-se de modo socialmente perfeito (definido sabe-se lá por quem e para o quê!) forem consideradas socialmente úteis e os outros forem descartados como estragados e por isso inúteis para a construção social, então o que resulta é um modelo de sociedade uniformizada quer na acção quer nas ideias - é o politicamente correcto. Ou seja, podem ser aos milhões os singulares mas no fim é como se fosse só um; como se esses milhões de corpos tivessem todos a mesma cabeça. Numa sociedade em que todos agem e pensam de acordo com um modelo único - como se todos fossem orgãos de um só corpo - então as decisões dos ditos  "indivíduos" seriam exactamente iguais de singular a singular. Num simples exercício de economia, bastaria então que um único singular desempenhasse a tarefa de decidir. Mas isso é o que propõe e oferece o ditador ( personificado ou na forma de um avatar AI) seja qual for a envergadura em termos da hierarquia global do poder.

Pensando racionalmente esse seria então o modelo ideal e possibilitante da felicidade dos singulares constituintes da sociedade. De facto, livres da obrigação de tomar decisões - que sempre acarretam responsabilidades - os singulares, libertados desse fardo, poderão então entregar-se eficazmente à concretização dos trabalhos e objectivos que lhes são atribuidos.

Será a isso que as pessoas aspiram?

É que está ser essa a direcção em que se movem.  

terça-feira, 17 de junho de 2025

Ernst Junger

 Releio The Worker de Ernst Junger. É um ensaio espantoso escrito em 1932 mas no qual se mostram já as consequências, e mais do que isso a finalidade, das transformações (ditas evolução) em curso.

"led to a strange phenomenon to which we are witnesses: to the invention of the artificial genius, to whom falls the task to play, supported by means of advertising... (...) The lack of uniqueness in the individual sense which characterises the form given to landscape is repetead in the individual."